Estadão: Nilton Travesso, o homem do Fino da Bossa, da TV Mulher e das boas novelas no SBT, chega aos anos 80

Nilton Travesso estava lá na Record em 1953, no bairro do Aeroporto, da Avenida Miruna, quando nasceu a TV dos Machado de Carvalho.

Foi ele quem sugeriu o nome Família Trapo à Família Trapo, de Golias e Jô Soares, inspirado pela Noviça Rebelde. Assim me contou Manoel Carlos, que com ele e Tuta, ou Antonio Augusto Amaral de Carvalho, compunha a lendária e eficiente Equipe A da Record.

Era gente que de incêndio em incêndio fazia brotar programas surpreendentes, como mágico que tira coelho da cartola.

Gente que fazia televisão ao vivo e nem se gabava, que aquilo era, para eles, a coisa mais natural do mundo.

Quando Roberto Carlos surgiu para fazer aquela tal de Jovem Guarda na TV, o Nilton estava lá, só espreitando o potencial daqueles caracóis, muito antes que os mullets ditassem regra na cabeça do Rei.

Quando Jair Rodrigues se juntou a Elis Regina n’O Fino da Bossa pela TV, o Nilton estava lá, foco na câmera e ouvidos atentos.

Nilton dirigiu Cacilda Becker em teleteatros ao vivo, e soube driblar o foco da câmera da nobre urina da Cacilda, quando ela, de tanto rir, perdia o controle da bexiga. Ok, ninguém fala ‘urina’, eu sei, mas não se pode chamar de ‘mijo’ o xixi da Cacilda, vai?

Quando as mulheres no Brasil mal sabiam como se manifestar, ainda em processo de “abertura lenta e gradual” da ditadura que assolou o País, o Nilton botou uma sexóloga, dona Marta Suplicy, para falar abertamente de sexo num tal de TV Mulher, ancorado por uma certa Marília Gabriela.

Obra do Nilton, o Clodovil falava de moda sem firulas. Longe desse modelo que hoje faz desfilar figurinos que a telespectadora jamais usará, o costureiro fazia pura prestação de serviços ao auxiliar senhoras, moças e meninas a se vestir para cada ocasião, dentro das possibilidades viáveis para sua plateia.

Quando os cantores quiseram fazer curtas-metragens para lançar suas músicas, coisa que logo foi tratada como videoclipe, o Nilton estava lá, com radinho de pilha e corneta para permitir a sincronia entre o movimento labial do cantor e a gravação de áudio que só seria inserida na hora de edição. Complicado explicar, mas a tecnologia era, de fato, coisa artesanal. Funcionava à mão.

Não havia blogs de moda, não havia blogs de sexo, não havia YouTube, e o Nilton estava lá, fazendo tudo isso, entre o Fantástico, que naquele tempo fazia jus ao nome, e um programa diário feminino que a televisão jamais conseguiu repetir, apesar das incontáveis tentativas a seguir. Perto do TV Mulher, os ditos femininos de hoje são, com perdão, uma fraude.

Foi o Nilton quem telefonou para a Rita Lee, perto da estreia do TV Mulher, dizendo que precisava de uma música para o programa. Ela estava de viagem marcada para Nova York dali a pouco, mas, em 24 horas, ligou de volta e cantarolou o refrão da abertura.

A televisão já foi mais ágil.

Quando a Manchete se dispôs a fazer a chamada “televisão Classe A”, o Nilton estava lá.

Quando um certo Jayme Monjardim se fez notar na Globo, pirando em luzes e filtros que faziam toda a diferença na estética das novelas, o Nilton promoveu sua troca de canal e fez do Monjardim o gênio de Pantanal. Porque, como quem tem história e obra de sobra, o homem tem gentileza e sabe delegar tarefas, permitindo que talentos alheios também voem.

Quando a Astrid Fontenelle foi resgatada da calçada da TV Gazeta, antes que a MTV Brasil lhe abrisse as portas, foi o Nilton quem investiu nela, pelo Mulher 90. também na Manchete.

Quando o SBT decidiu fazer novelas bacanas, o Nilton estava lá. Pense na melhor novela que a TV de Silvio Santos, rotulada como padrão mexicano de teledramaturgia, já produziu? Bingo, lá está Éramos Seis. Lá estava o Nilton. As Pupilas do Sr. Reitor, da qual eu tive a imensa honra de participar, tinha os créditos do Nilton. Ossos do Barão, Sangue do Meu Sangue? De novo com Nilton no comando.

Quando a televisão se rendeu ao encanto de Ana Paula Arósio, o Nilton já havia se rendido a tanto fazia tempo. Inscreveu a moça em curso preparatório, com Beto Silveira e, após breve participação em Éramos Seis, aguardou pelo tempo de amarurecimendo dela, dois anos depois, quando estrelou  Ossos do Barão.

Quando a Jovem Pan resolveu fazer TV na web, lá foi o Nilton, de novo a fazer dueto com o antigo companheiro de Equipe A da Record, Sr. Tuta, e atualizar, como sempre, nesses 60 anos, o software profissional que o faz ser quem é.

De tanto operar lançamentos em seis décadas de televisão, o Nilton criou sua própria escola.

Hoje, o Nilton faz 80 anos de vida.

De novo, está entre mulheres, operando a boa verborragia do Saia Justa, no GNT – que se livrou da pecha de “programa feminino” para ser uma reflexão capaz de alcançar horizontes muito maiores.

E, posto reservado a gênios, está de novo participando da inovação, ao fazer TV de rádio na web.

Antenado, esse Nilton.

Não bastasse tudo isso, o sujeito ainda tem caráter, valor tão vulnerável aos encantos produzidos pelos holofotes do meio em que circula.

Vou escrevendo tudo isso com algum receio de parecer piegas. Será? Pois digo: os insensíveis que me perdoem e se conformem com a mediocridade geral, mas o Nilton bem merece ser celebrado. Merece que rufemos tambor, merece confetes e serpentinas, merece chuva de fogos e que tais.

Oxalá o mundo tivesse mais Niltons.

Encerro com frase primordial do mestre: “As pessoas precisam se ouvir mais, ouvir o que dizem. As pessoas não se escutam, não sentem o que dizem.”

Vale para quem faz TV, da apresentação à atuação, mas vale sobretudo para a vida.

 

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